Memória granulada. Super 8.
Tua imagem tem mania de lápis.
Lápis-contorno.
Contorno de canto
Canto de boca de um canto a outro.
Caixa de lápis.
Lápis de cor pintando tudo ao redor.
.
Custa a entender esse efeito.
Tão natural, tão instantâneo,tão fácil e tão producente mesmo a virtual presença.
Efeito de roubo.
De praticar bobos,bobos, bobos sorrisos.
Aí sou só risos.
E risos só.
Um riso teimoso já mora em minha boca e vive escondido do todo.
Vive escondido num canto.
Mas ao rever tua imagem ele foge arteiro e expande boca toda como se há muito morasse ali ou viesse visitar-me pela primeira vez.
Domina o rosto inteiro, brinca com meus olhos e acalma tudo por dentro causando agonia boca-peito-a-dentro, e após tudo isso ele ainda demora a se por no canto. Vejo a hora pular em cima ti.
De tão dado.
De tão livre.
De tão teu naquele instante.
Tens a imagem do sorriso.
Do sorriso meu.
7 de setembro. Dia da Independência ?! (http://www.flickr.com/photos/delosmarmagalhes/5188164316/in/photostream)
Se cada hora vem com sua morte
se o tempo é um covil de ladrões
os ares já não são tão bons ares
e a vida é nada mais que um alvo móvel
.
você perguntará por que cantamos
.
se nossos bravos ficam sem abraço
a pátria está morrendo de tristeza
e o coração do homem se fez cacos
antes mesmo de explodir a vergonha
.
você perguntará por que cantamos
.
se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram as árvores e céu
se cada noite é sempre alguma ausência
e cada despertar um desencontro
.
você perguntará por que cantamos
.
cantamos porque o rio esta soando
e quando soa o rio / soa o rio
cantamos porque o cruel não tem nome
embora tenha nome seu destino
cantamos pela infância e porque tudo
e porque algum futuro e porque o povo
cantamos porque os sobreviventes
e nossos mortos querem que cantemos
.
cantamos porque o grito só não basta
e já não basta o pranto nem a raiva
cantamos porque cremos nessa gente
e porque venceremos a derrota
.
cantamos porque o sol nos reconhece
e porque o campo cheira a primavera
e porque nesse talo e lá no fruto
cada pergunta tem a sua resposta
.
cantamos porque chove sobre o sulco
e somos militantes desta vida
e porque não podemos nem queremos
deixar que a canção se torne cinzas.
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Mario Benedetti


